As matemáticas e as ciências afins na construção dos territórios nacionais: atores, artefatos e instituições

Organizadores:
Fernando Figueiredo (Universidade de Coimbra)
Thomás A. S. Haddad (Universidade de São Paulo)

Desde a Antiguidade, o domínio sobre um determinado espaço – um território – foi  elemento importante para o exercío do poder. Os Estados modernos, que se começam a fixar a partir 
dos finais da Idade Média, diferenciam-se pelo exercício do poder político e administrativo sobre as populações e sobre determinadas áreas geográficas. O conhecimento e o esquadrinhamento do território e suas fronteiras tornam-se eles mesmos uma questão de estado.

A noção de território aponta para a existência de um espaço dominado por um certo tipo de poder. Como Michel Foucault sublinhou, o conhecimento e o poder estão interligados, como os dois lados da mesma moeda. O conhecimento dá poder, legitimando-o; e o poder precisa e atrai o conhecimento. Com a expansão marítima europeia, a descoberta e fixação em novos espaços além-mar, ampliando o domínio territorial para áreas espalhadas pelos quatro continentes, intensifica-se o uso do conhecimento geográfico/cartográfico como meio de controle das terras distantes. É assim que, ao longo do século XVIII, a matemática aplicada à astronomia, à cartografia, à arquitetura militar torna-se uma expressão de poder estatal e imperial, enquanto os impérios europeus começam a empreender grandes cruzadas para esquadrinhar seus territórios, e também para inventariar bens, recursos naturais e características das populações. Aqui se testemunha a ascensão da estatística, dos censos e da cartografia temática, em outra frente de aplicação das matemáticas à qual o simpósio também devotará atenção.

Neste movimento, as cartas geográficas produzidas com maior precisão ganham destaque. Para o desenvolvimento geral de um país, em áreas como agricultura, indústria, comércio, vias de comunicação etc., os políticos e os técnicos (militares, engenheiros e arquitetos) precisavam de mapas atualizados e acurados de seus territórios, bem como de inventários e censos de populações e recursos, estes últimos alimentando uma nova economia política com seus próprios actores e instituições. Mapear os espaços e quantificar seus ocupantes tornou-se, de fato, um empreendimento político-científico de todas as potências marítimas europeias.

Neste contexto, emergem novas comunidades de homens de ciência e novas instituições científicas. A par dos jesuítas e outros missionários tradicionalmente envolvidos em atividades de registo cartográfico, engenheiros e outros técnicos com formação matemática terão cada vez mais um papel fundamental no conhecimento do território e na emergência de comunidades de cientistas na Europa e nas Américas. Novas instituições são gizadas com o objetivo de racionalizar o conhecimento sobre os espaços metropolitanos e coloniais e de melhor preparar os cartógrafos, astrónomos e matemáticos envolvidos nesse trabalho.

Neste simpósio pretendemos refletir e discutir questões ligadas ao papel da matemática e as ciências afins na solidificação e construção dos territórios nacionais, bem como dos actores e instituições marcantes desse processo.

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